• mulheres 50+ criam confrarias e transformam experiência em poder


      Um novo movimento começa a ganhar força e se espalhar pelo país. São grupos, comunidades, redes e confrarias que reúnem mulheres de diferentes áreas de atuação para trocar conhecimento, fazer conexões, pensar carreira, negócios, saúde, longevidade e, sobretudo, lembrar umas às outras de que ainda existe muito futuro pela frente.

      A estilista e mentora Tati Nigro percebeu essa onda antes mesmo de ela ganhar nome. Criadora da WAV& Woman World, que promove o encontro The Golden WAV& Mulheres Pavimentando o Futuro, ela diz ter investido na iniciativa para “potencializar o capital humano feminino” que existe em cada mulher. “No Golden WAV&, não existe uma mulher que está ali apenas para ensinar e outra apenas para aprender”, diz Tati. “Uma empresária pode trazer décadas de experiência, enquanto outra pode trazer uma visão de mundo que provoca, questiona e abre novas possibilidades.” É aí que a confraria deixa de ser apenas encontro e se torna realmente uma rede.

      O momento, aliás, não poderia ser mais significativo. O Brasil está envelhecendo, e as mulheres são maioria justamente nas faixas etárias mais altas. No Censo 2022, havia 78,8 homens para cada 100 mulheres na idade de 60 anos ou mais. Além disso, a presença de pessoas mais velhas no mundo do trabalho vem crescendo. O IBGE aponta que o envelhecimento da população já alterou a composição etária de quem trabalha, com aumento da participação das pessoas de 50 anos ou mais. O instituto também registrou um crescimento de mão de obra dos 60+ puxado justamente pelas mulheres: o índice feminino passou de 14,6% para 16,7%. Ou seja: elas estão chegando mais longe. E continuam trabalhando, empreendendo, liderando, criando.

      Durante um MBA em Luxury Management no Principado de Mônaco, Tati Nigro observou que as mulheres maduras não queriam mais ocupar apenas o lugar de consumidoras. Queriam autoria. “São mulheres que chegaram a uma fase da vida em que têm repertório, experiência, poder de decisão, independência financeira, histórias para contar e, principalmente, uma clareza muito maior sobre quem são e o que desejam”, afirma. “E, ainda assim, o mercado continuava, muitas vezes, falando com elas como se elas precisassem voltar a ser jovens para serem relevantes.”

      Tati Nigro, fundadora da Wave Woman World — Foto: Divulgação
      Tati Nigro, fundadora da Wave Woman World — Foto: Divulgação

      É por isso que essas confrarias têm crescido tanto, e com um significado ainda maior depois dos 50: eles criam um lugar em que aquilo que foi aprendido ao longo de décadas tenha valor. Muito valor. A maturidade começa, finalmente, a ser compreendida como repertório para o futuro. “Para mim, maturidade é capital humano”, resume Tati.

      Traudi Guida conhece bem esse conceito. Uma das referências do varejo de moda brasileiro, cofundadora da Le Lis Blanc e fundadora da SOUQ, ela poderia ter encerrado a carreira depois de vender a primeira empresa. Não o fez. Aos 79 anos, continua indo ao escritório, liderando o visual merchandising das lojas, participando de lançamentos e aprendendo sobre inteligência artificial.

      Traudi Guida, empresária fundadora da SOUQ — Foto: Reprodução Instagram
      Traudi Guida, empresária fundadora da SOUQ — Foto: Reprodução Instagram

      “Eu não saberia o que fazer com o meu tempo se eu não trabalhasse, não produzisse. E eu gosto de gente.” A frase desmonta uma ideia ainda muito presente no imaginário coletivo: a de que existe uma idade em que a mulher deve naturalmente desacelerar e abrir caminho para os mais jovens. Traudi pensa diferente. “Se pintar na minha frente uma mulher de 70 anos, com talento para qualquer departamento, eu contrato na hora.”

      Ela também não acredita que experiência signifique parar de aprender. Pelo contrário. Trabalhando com pessoas mais jovens, presta atenção na música que elas ouvem, no comportamento, na tecnologia. Está estudando sobre IA. “Eu entendi que você tem que conviver com isso e aprender cada vez mais. A maturidade me ensinou que é preciso evoluir sempre.” Um conselho da empresária? Não se esconder atrás da fortaleza construída sobre aquilo que já se sabe, mas sim viver em uma espécie de laboratório permanente.

      Não é por acaso que a ideia de confraria feminina encontra um terreno tão fértil nessa fase da vida. Depois de anos precisando provar que eram tão competentes quanto os homens, dividir conhecimento é, sem dúvida, uma forma de mudar as regras do jogo.

      Raquel Galinatti, delegada de polícia, mestre em Filosofia e primeira mulher a presidir o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, construiu a carreira em ambientes tradicionalmente masculinos. Também está na política. Ela conta que, no início da carreira, respondia às provocações e tentativas de desqualificação com uma postura mais agressiva. Com o tempo, percebeu que havia armadilhas invisíveis em funcionamento.

      Raquel Galinatti, primeira mulher a presidir o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo — Foto: Reprodução Instagram
      Raquel Galinatti, primeira mulher a presidir o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo — Foto: Reprodução Instagram

      “Quando você entende que há um certo tipo de movimento para te provocar, você já sai dois passos à frente”, diz. Hoje, quando alguém a interrompe repetidamente numa reunião, ela não eleva mais a voz. Diz, simplesmente: “Agora é minha vez de falar e não quero ser interrompida”. A maturidade fez com que ela aprendesse a não desperdiçar energia disputando espaço da maneira que esperavam que ela disputasse. “A força feminina não está na grito. E os homens estão percebendo”, resume.

      Outro diferencial feminino que vem ganhando cada vez mais espaço é o cuidado. A médica Marianne Pinotti lembra que as mulheres de hoje podem viver aproximadamente um terço da vida no climatério e na pós-menopausa. É uma fase que exige atenção específica à alimentação, à musculatura, ao sono e à saúde mental. Mas, para ela, existe algo que nenhuma consulta médica substitui: “Saúde não é apenas o que fazemos individualmente. É também a qualidade dos vínculos que conseguimos construir”.

      Marianne Pinotti, médica da mulher — Foto: Divulgação
      Marianne Pinotti, médica da mulher — Foto: Divulgação

      Isso é especialmente interessante porque devolve ao cuidado uma dimensão que nem sempre aparece quando falamos de longevidade. Nas chamadas Blue Zones, regiões estudadas por concentrarem populações longevas, conexão social, pertencimento e propósito aparecem entre os elementos associados a uma vida mais longa e saudável. Uma pesquisa mais recente, publicada no JAMA Network Open, reforça a importância desse vínculo: o estudo, que acompanhou mais de 13 mil adultos com mais de 50 anos, encontrou ligação entre o aumento do isolamento social e maior risco de mortalidade, incapacidade e demência.

      Não é preciso transformar uma confraria em tratamento para reconhecer o que existe ali: conexão humana também faz parte de uma vida longa e, sobretudo, de uma vida que vale a pena viver. A dra. Marianne resume da seguinte forma: “Meu conselho é que as mulheres se encontrem, se divirtam juntas, troquem experiências, viagem, porque isso faz bem para a nossa saúde e para a nossa alma.”

      Há uma ironia histórica nesse movimento. Os homens sempre tiveram seus clubes do bolinha, mesas de bar, confrarias, espaços informais de influência. Muitas oportunidades nasceram desses encontros que pareciam, por fora, apenas sociais. Raquel chama atenção justamente para isso: “Para as mulheres, esses espaços eram negados. Elas tinham que ficar em casa.” É claro que sempre tiveram amizade, família e apoio. A novidade está em transformar essa sociabilidade também em capital profissional, intelectual e econômico. Como diz Tati Nigro: “É assim que o conhecimento deixa de ser patrimônio individual e passa a ser legado coletivo”.



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