• o que a moda pode aprender com a história de Juma Xipaia


      Juma Xipaia defende seu território com a própria vida. No documentário YANUNI, produzido por Leonardo DiCaprio, sua história revela os impactos da mineração ilegal sobre a Amazônia e os povos indígenas, mas também coloca uma questão que vai muito além da floresta, qual a origem do ouro usado na joalheria? “Na minha infância vivíamos felizes no nosso território, com água limpa, peixes, medicinais das plantas. Frutos sem veneno, banho de rio, sol e chuva. Vivíamos em equilíbrio com a natureza. Era possível viver em liberdade. Não é só floresta, ela é muito mais, tem fauna, flora, bilhões de formas de vida”, conta a indígena à Vogue Brasil.

      Hoje, a realidade de seu povo é outra. A região enfrenta os impactos devastadores da mineração em busca de ouro, uma das principais ameaças aos povos originários e à floresta amazônica. E embora o garimpo aconteça distante das vitrines das grandes cidades, a cadeia do ouro chega também à moda e à joalheria, setores que precisam olhar com mais atenção para a origem da matéria-prima que utilizam.

      Os impactos vão muito além da destruição da biodiversidade. A mineração ilegal também está associada à contaminação por mercúrio, utilizado no processo de extração do ouro, além da destruição de rios e territórios e da violência contra comunidades indígenas. O médico especialista em família e comunidade, Dr. Gabriel Peviani, explica que o mercúrio pode causar graves alterações neurológicas, convulsões, insuficiência respiratória, intoxicações graves e até morte.

      O custo dessa atividade no meio ambiente também pode ser dimensionado. Segundo a calculadora de impactos do garimpo desenvolvida pelo Ministério Público Federal em parceria com a Conservação Estratégica, cada quilo de ouro extraído ilegalmente no Brasil pode representar entre R$ 940 mil e R$ 2 milhões em danos ambientais.

      A história de Juma ajuda a entender que a discussão sobre o ouro não começa na joia. Ela começa muito antes, no território onde o minério é extraído e nas condições em que essa extração acontece. Para a moda e a joalheria, isso traz uma responsabilidade sobre a origem da matéria-prima e sobre a capacidade de rastrear o caminho que ela percorre até chegar ao consumidor.

      Pesquisas independentes estimam que pelo menos metade do ouro negociado no Brasil tem indício de irregularidade ou relação com desmatamento — Foto: Divulgação
      Pesquisas independentes estimam que pelo menos metade do ouro negociado no Brasil tem indício de irregularidade ou relação com desmatamento — Foto: Divulgação

      Para a especialista Mayara Rovery, fundadora do YBY Bank e YBY Collective, a primeira empresa de metais de reuso do Brasil, olhar para essa origem é uma questão que precisa estar no centro da cadeia. “A moda e a joalheria trabalham com matéria-prima que carrega uma origem, e essa origem tem peso real: pesquisas independentes estimam que pelo menos metade do ouro negociado no Brasil tem indício de irregularidade ou relação com desmatamento, e mais de 90% de toda a mineração ilegal do país está dentro da Amazônia. Esse não é um problema brasileiro, é um problema mundial: o consumo de ouro é global, e a joia final circula em qualquer mercado do planeta.”

      O setor da moda está entre os grandes consumidores de ouro do planeta e, diante dos impactos associados à extração, precisa avançar em transparência e rastreabilidade. Mais do que saber quanto ouro é utilizado, é necessário saber de onde ele vem, como foi extraído e quais impactos estão associados à sua origem.

      É nesse ponto que o uso de metais provenientes de reuso ganha espaço como uma alternativa para reduzir a pressão sobre a extração de novos minérios. Para Mayara, a economia circular pode ajudar a transformar a forma como esses materiais são utilizados pela indústria, desde que venha acompanhada de informação sobre sua origem e trajetória.“ A reciclagem de metais preciosos aparece, nesse contexto, como uma alternativa para reduzir a necessidade de novas extrações”

      Mas o reuso, por si só, não resolve a questão da transparência, é preciso saber de onde vem. “Rastreabilidade não é um selo bonito pra colocar na embalagem, é a informação que permite a uma joalheria, uma refinaria ou um consumidor final verificar de onde veio aquele metal antes de decidir comprar. A verdadeira solução desse problema não está em reprimir o dano depois de feito, está em garantir a origem antes, com dado que sustente essa garantia”, diz Mayara.

      O debate sobre a origem do ouro também se conecta a uma questão maior levantada pelo filme: a crise climática e a necessidade de reconhecer o conhecimento e a participação dos povos indígenas nas decisões sobre o futuro da Amazônia. “Há tempos os povos indígenas alertam sobre as mudanças do clima, mas essa luta precisa ser democrática, com a participação de toda a sociedade, não apenas um único grupo. Vocês precisam acordar agora. Nós somos o clima”, destaca Juma.

      Cena de "YANUNI" — Foto: Divulgação
      Cena de “YANUNI” — Foto: Divulgação

      YANUNI mostra que os impactos ambientais e sociais não acontecem de forma isolada. A destruição dos territórios, a violência contra povos indígenas e a crise climática fazem parte de uma mesma realidade, que também chega às cadeias globais de consumo.

      Mayara aponta que há avanços que mostram que mudanças são possíveis. “ Na Terra Yanomami, por exemplo, a redução do garimpo ilegal após ações de fiscalização demonstra que políticas públicas e controle do território podem produzir resultados. Mas, combater o problema depois que o dano já aconteceu não é suficiente. Também é necessário atuar sobre a cadeia que mantém a demanda por esse ouro”.

      No caso da joalheria, conhecer a procedência dos metais, ampliar a rastreabilidade e investir no reuso são caminhos possíveis para reduzir a dependência de novas extrações e, principalmente, tornar mais transparente uma cadeia que ainda carrega muitos pontos cegos. “Enquanto o mercado não exige de onde vem o metal que compra, o incentivo pra abrir mais uma frente de garimpo continua de pé, não importa quanta fiscalização venha depois. É esse o território em que atuo com o YBY Collective: uma plataforma que documenta a origem de cada grama de metal reciclado, do ponto de entrada até o destino final, com dado auditado em vez de promessa genérica de sustentabilidade.”

      O filme acompanha a trajetória de Juma, que, por meio de seu ativismo, ampliou sua atuação para além de seu território e alcançou espaços de discussão internacionais, até chegar a uma nomeação histórica como a primeira Secretária de Direitos Indígenas do Brasil, durante o governo do presidente Lula.

      Leonardo DiCaprio posa com líder indígena Juma Xipaia em lançamento de filme sobre Amazônia em NY — Foto: reprodução/instagram
      Leonardo DiCaprio posa com líder indígena Juma Xipaia em lançamento de filme sobre Amazônia em NY — Foto: reprodução/instagram

      Hoje, Juma segue atuando na defesa dos povos indígenas. “Neste momento tão crítico para a Amazônia, a mensagem do filme não poderia ser mais importante. Espero que ele atravesse fronteiras, desperte consciências e inspire o mundo a agir antes que seja tarde demais”, finaliza.

      A história de Juma mostra que proteger a floresta também significa questionar as cadeias que se beneficiam de seus recursos. Para a moda e a joalheria, talvez uma das principais lições de YANUNI seja justamente essa: antes de perguntar como uma joia foi feita, é preciso começar a perguntar de onde veio o metal que a compõe, pois falar sobre o impacto do garimpo também significa falar sobre a responsabilidade de quem compra, comercializa e utiliza esse metal.

      Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.



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