• O verdadeiro problema de muitos casamentos talvez não seja a falta de sexo


      Poucos filmes recentes conseguiram provocar tantas discussões sobre desejo, casamento e intimidade quanto O Convite. Com roteiro e direção de Olivia Wilde e interpretações marcantes de Penélope Cruz, Edward Norton, Seth Rogen e da própria Wilde, o filme transforma um jantar aparentemente comum em um laboratório das relações amorosas contemporâneas.

      Tudo acontece nas palavras, nos olhares, nas pausas e, principalmente, naquilo que não pode ser dito. Por que o casal consegue se abrir com estranhos, mas não consegue conversar entre si? Como é possível conviver tantos anos e não ter intimidade para falar sobre os próprios desejos e insatisfações? Tendo apenas o apartamento de um dos casais como cenário, o filme revela, em cada conversa, camadas de insegurança, ressentimento e silêncio que muitos casais que tenho pesquisado nos últimos trinta anos conhecem muito bem.

      O mais interessante não é saber por que o casal transa ou não transa, ou por que a grama do vizinho parece sempre mais verde. Também não é apenas uma discussão sobre os motivos que fazem o respeito e a admiração desaparecerem ao longo do casamento. Muito menos uma defesa de casamentos abertos ou da ideia de que transar com outras pessoas seria a solução para manter uma relação viva.

      No filme, os casais parecem modernos, livres e bem resolvidos. Falam sobre desejo, fantasias e limites com uma naturalidade impressionante. Mas, à medida que a história avança, é evidente que falar sobre desejos não realizados pode ser muito mais fácil do que falar sobre dor, rejeição, insegurança e solidão. A verdadeira vulnerabilidade está em dizer: “Eu não me sinto mais desejada por você”.

      Ao longo de décadas pesquisando milhares de homens e mulheres de diferentes gerações, ouvi inúmeras histórias sobre casamentos longos. Curiosamente, as mulheres raramente reclamam apenas da falta de sexo. Falam muito mais da falta de se sentirem desejadas, valorizadas e reconhecidas pelo parceiro. Muitas se sentem ignoradas, invisíveis, não escutadas com profundidade.

      A palavra que mais aparece em seus relatos é intimidade. Mas intimidade, para elas, não significa apenas sexo. Significa conversa, escuta, confiança, segurança emocional. Muitas dizem que têm mais intimidade com as amigas, e até mesmo com desconhecidos, do que com os próprios maridos.

      Nas minhas pesquisas sobre casamentos, percebi que essa proximidade e confiança não nascem necessariamente do tempo de convivência. Muitos casais que estudei vivem juntos durante décadas sem nunca conseguirem conversar sobre aquilo que realmente importa. Sabem administrar a casa, os filhos, as contas e a rotina, mas não encontram palavras para falar de medo, frustração, desejo ou solidão. Pode parecer um paradoxo, mas, em muitos casamentos, quanto mais longa a convivência, maior parece ser o medo de ferir, de ser julgado, de provocar uma briga ou de ouvir uma resposta que não se quer escutar. Aos poucos, o silêncio passa a ocupar o lugar da conversa.

      Acredito que O Convite está tendo tanto sucesso não porque fala de falta de sexo no casamento, mas porque fala da enorme dificuldade que temos de dizer para quem amamos tudo aquilo que mais precisamos dizer. Meu cronista favorito, Rubem Alves, fez uma reflexão que, para mim, resume o que mais me impactou no filme: “Quando a gente vai casar com uma pessoa, só há uma pergunta que importa e a pergunta é a seguinte: ‘Terei prazer de conversar com essa pessoa daqui a trinta anos?’”

      Será que a intimidade desaparece porque o casal deixa de se amar ou porque deixa de conversar?



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