Você provavelmente já ouviu essa história algumas vezes: depois de uma certa idade, a produção de colágeno cai. Na menopausa, a queda acelera. A pele fica mais fina, menos firme, aparecem mudanças na textura. E então vem a recomendação quase automática: está na hora de repor.
Mas se você ainda pensa no colágeno apenas como aquela proteína ligada principalmente à firmeza da pele, vale atualizar o olhar. O que a ciência vem mostrando é que ele está muito mais perto de ser uma questão de estrutura e funcionalidade do que de beleza isoladamente. “A manutenção e o cuidado com o colágeno vai muito além da questão estética. Está ligado à longevidade funcional: envelhecer com mobilidade, força, autonomia e tecidos capazes de manter sua função”, diz a farmacêutica Vivian Zague, head de pesquisa, saúde e nutrição da Genu-in e JBS Novos Negócios. É por isso que ele ganha ainda mais importância para nós, mulheres 50+.
A transição menopausal marca mesmo uma fase de aceleração da perda de colágeno da pele. Estudos clássicos já mostravam uma relação entre o status hormonal — no caso, a queda de estrogênio — e a quantidade de colágeno cutâneo, e pesquisas posteriores confirmaram que a relação é particularmente acentuada nos primeiros anos após a menopausa.
Segundo Heloise Martins, farmacêutica e diretora de inovação da Galena, nos primeiros cinco anos depois da baixa nos níveis de estrogênio, a mulher pode perder cerca de 30% do colágeno da pele. É um número que ajuda a dimensionar o que sentimos diante do espelho. Mas o que a gente vê, é apenas uma parte da história. “Hoje entendemos que a perda de colágeno é um reflexo do envelhecimento sistêmico, e não apenas uma questão estética”, afirma Heloise.
O colágeno é uma das principais proteínas estruturais do organismo e integra uma espécie de rede que sustenta os tecidos, além de participar da comunicação entre as células, chamada de matriz extracelular. Na pele, todo mundo já sabe, ajuda a dar sustentação e resistência. Mas ele atua também nos músculos, onde faz parte da estrutura que envolve e organiza as fibras, e participa da transmissão de força e dos processos de reparação. Nas articulações, está presente na cartilagem, nos tendões e ligamentos. Nos ossos, o colágeno tipo I é o principal componente orgânico da matriz.
Ou seja: quando pensamos em preservar colágeno depois dos 50, estamos falando também de estrutura para continuar nos movimentando, treinando, caminhando, viajando, dançando, carregando malas, subindo escadas. A lista de coisas que queremos continuar fazendo é, aliás, um bom lembrete de que longevidade não é apenas viver mais. É conseguir continuar sendo funcional.
Só que o envelhecimento acaba modificando a matriz extracelular. O colágeno e a elastina, por terem uma vida relativamente longa, ficam sujeitos a alterações como glicação e fragmentação, que podem comprometer suas propriedades. É um processo que ajuda a explicar por que não basta pensar apenas em “produzir mais” colágeno. O organismo precisa também manter um equilíbrio entre produção, degradação e remodelação.
“É essa comunicação entre matriz e células que permite que pele, ossos, músculos, tendões e cartilagens mantenham sua capacidade de renovação e adaptação ao longo da vida”, explica Vivian. Na prática, a conversa sobre colágeno depois dos 50 se aproxima bastante daquela que já fazemos sobre massa muscular, força óssea e saúde metabólica: não esperar a perda acontecer para começar a cuidar da estrutura que queremos preservar.
Afinal, tomar colágeno realmente funciona?
O colágeno que a gente ingere não “viaja” simplesmente até a pele e se transforma em colágeno ali. Como explica Vivian, essa proteína é digerida em aminoácidos e pequenos peptídeos. Alguns desses peptídeos são absorvidos e atuam como sinais biológicos, estimulando os fibroblastos, que são as células responsáveis pela produção de componentes da matriz extracelular. “Nós não recolocamos diretamente o colágeno ingerido na pele”, explica a especialista.
Mas essa estratégia, como apontam vários estudos, ajuda. Uma meta-análise publicada no International Journal of Dermatology em 2023 reuniu 26 estudos randomizados, com 1.721 participantes, e encontrou melhora significativa de hidratação e elasticidade da pele com o uso de colágeno hidrolisado em comparação com placebo.
Quando falamos dos músculos, ossos e das articulações, os resultados são ainda mais promissores, embora também exijam cautela. Uma revisão publicada em 2025 na revista Orthopedic Reviews analisou 36 ensaios clínicos sobre colágeno hidrolisado tipo I e saúde de ossos, músculos e articulações. Os resultados apontaram benefícios para articulações, incluindo redução de dor e melhora de alguns parâmetros de mobilidade. Para músculos, os achados foram menos consistentes, mas mostrando boa resposta principalmente quando a suplementação estava associada ao exercício. Para os ossos, os autores consideraram que as evidências ainda não permitem conclusões definitivas.
Isso tem a ver com algo que Vivian ressaltou: suplemento não substitui os fundamentos. “A boa saúde do colágeno é consequência do estilo de vida como um todo e de escolhas inteligentes”, afirma. Traduzindo para a vida real: proteína suficiente na alimentação, atividade física regular, especialmente exercícios que preservem força muscular, além de uma alimentação adequada em vitaminas e minerais e bons cuidados metabólicos continuam sendo a base. O suplemento é parte da estratégia, não atalho.
Além disso, as especialistas alertam para a importância de buscar bons produtos. “Promessas de ‘repor colágeno’ sem estudos clínicos e sem transparência sobre dose composição e rastreabilidade, merecem ser vistas com cautela”, diz Vivian. “Hoje, as melhores evidências científicas estão justamente nos peptídeos e oligopeptídeos de colágeno avaliados em estudos clínicos, que mostram benefícios consistentes para pele, melhora de firmeza e elasticidade, com dose de 2,5 g diários.
Para mim, o olhar mais interessante para o colágeno depois dos 50 é esse: uma forma de cuidar da estrutura que sustenta meu corpo para a vida que ainda quero viver, e não só o rosto que quero ter.

