O manual da amizade feminina não poderia ter sido mais evidente para as adolescentes que cresceram nos anos 1990. Buffy, a Caça-Vampiros e Willow, Blossom e Six, Cher e Dionne. Antes mesmo de o termo BFF existir, a gente as via por toda parte. Queríamos ser como elas, com seus tops cropped combinando, suas línguas secretas e apertos de mão. Depois, nossos 20 e 30 anos foram moldados pelas agruras e alegrias de Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte, e de Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna.
Quando você chega aos 40, porém, as séries centradas nas sutilezas e no amor entre amigas somem mais rápido do que você consegue dizer “assinatura de suplemento para a perimenopausa”. A gente aparece representada, mas as amizades não são o enredo. Elas são coadjuvantes dos dramas de casamento, da maternidade e… do assassinato, em produções como Motherland e Big Little Lies (que ganhará uma terceira temporada). Aliás, o “trio tóxico” de meia-idade de The White Lotus no ano passado, vivido por Carrie Coon, Michelle Monaghan e Leslie Bibb, foi a trama que realmente deu o que falar, com suas dinâmicas de amizade complicadas e suas traições. Cadê o spin-off delas?, se perguntavam os espectadores. Estávamos implorando por mais daquilo, ainda mais porque And Just Like That tinha sido um experimento constrangedor que deu errado.
A chegada de The Five-Star Weekend (que ainda não tem data oficial para estrear no Brasil), com Jennifer Garner, Chloë Sevigny, Regina Hall, D’Arcy Carden e Gemma Chan, é bem-vinda, então. Baseada no livro de 2023 de Elin Hilderbrand, a história acompanha Hollis Shaw (Garner), uma influenciadora de lifestyle na casa dos 50 anos que, seis meses depois de perder o marido, Matthew (Josh Hamilton), em um acidente de carro trágico, organiza um fim de semana entre amigas em sua casa perfeita em Nantucket, convidando uma amiga de cada fase da vida (elas são as “cinco estrelas”).
Ainda que haja um certo ar de comédia romântica na brisa litorânea, a série também traz uma camada de nuance ao retratar a amizade na meia-idade que, na minha opinião, And Just Like That gostaria de ter alcançado. As mulheres são muito diferentes e conhecem Hollis em níveis distintos. Nem todas gostam umas das outras, mas as maldades não são o foco tanto quanto o esforço delas para deixá-las de lado e estar ao lado de Hollis e umas das outras.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/i/1/JuJ8tkQ9OgmI5AayKW4w/fl-08-thefivestarweekend-s01.webp)
Todas têm suas próprias questões que gostariam de esquecer durante o fim de semana (impossível, no fim das contas, depois de uma garrafa enorme de tequila). Elas falam de sexo, dos pelos inesperados da menopausa, de adesivos de estrogênio, de luto, de trabalho, de filhos adolescentes e de redes sociais, tudo de um jeito leve, que não soa performático nem condescendente. Há até uma trama de descoberta lésbica na meia-idade, conduzida com cuidado, graças a uma sala de roteiristas majoritariamente queer. Sevigny traz uma simpatia áspera ao conjunto polido, Hall fica com as tiradas, Carden com uma insegurança com a qual a gente se identifica, e Garner com todo o conforto de comédia romântica.
A showrunner Bekah Brunstetter disse que considera os 40 e os 50 anos de uma mulher a fase mais fértil para esse tipo de história rica. “Grandes mudanças de vida continuam acontecendo”, contou à Variety. “Algumas mulheres ainda estão tentando ter filhos. Algumas estão saindo do primeiro casamento. Algumas estão vendo os filhos deixarem o ninho. Algumas estão se apaixonando pela primeira vez. Algumas estão, pela primeira vez, exatamente onde queriam estar na carreira.”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/L/n/Ub9fa1T3aVsTbtjnu5Fg/fl-01-fivestarweekend-s01.webp)
Como Hollis reconhece, “estamos todas lidando com muita coisa”. Ao longo dos oito episódios, descobrimos que Gigi (Chan), que Hollis conheceu on-line, na verdade tinha um caso com o marido morto de Hollis. Tatum (Sevigny), a amiga descolada do colégio, encontrou um nódulo na mama e espera o resultado da biópsia. Brooke (Carden), a amiga que virou mãe, perdeu a própria identidade depois dos filhos e vive um casamento infeliz com um homem que está sendo investigado no trabalho por “encostar em uma estagiária”. Dru-Ann (Hall), a colega de faculdade e bem-sucedida agente esportiva, está no meio de um cancelamento depois que um vídeo em que menospreza a saúde mental de um cliente viralizou, e ainda lida com uma lesão no joelho. Elas bebem, tomam balas com maconha, choram, dançam, brigam e fazem o possível para ajudar Hollis a encarar o luto que ela vem enterrando sob sua recepção impecável no estilo Meghan Markle (como aponta Dru: “Seu marido acabou de morrer e você fez cestas de presente pra gente”).
The Five-Star Weekend é o equivalente em tela àquela despedida de solteira que você organizou para a sua melhor amiga um dia. As amigas do trabalho, as melhores amigas de escola, a parceira de pilates e as meninas da faculdade, todas numa aula de pintura em cerâmica enquanto bebem prosecco. Você sai de lá com piadas internas e laços novos, entendendo como a sua melhor amiga foi juntando todas aquelas pessoas pelo caminho. O elemento do luto talvez esteja um pouco lavado de comédia romântica, com a verdadeira devastação da perda do marido de Hollis suavizada por uns beijos com Jack, o namorado de colégio vivido por Timothy Olyphant. Ainda assim, para quem assiste e já passou pelo próprio luto, a série lembra que as pessoas que te levantaram do chão foram as suas melhores amigas.
O sentimento que define a história é o de que você pode ser mais de um tipo de pessoa ao longo da vida, e que cada amiga que você faz no caminho te entende de uma forma específica. As amizades da meia-idade fizeram de nós quem somos. As que seguem com você aos 40 e 50 anos ou viram você ser todas as suas versões diferentes e cometer um milhão de erros nas últimas décadas e mesmo assim ficaram, ou foram exatamente quem você precisava ao seu lado no começo de um capítulo novo. A série deixa a contradição clara: as pessoas que mais te conhecem na vida costumam ser as que mais te tiram do sério. Mas, na maior parte do tempo, na meia-idade, você só agradece a Deus por ter gente que deixa você ser você.
Assine a nossa newsletter!
Tudo que você precisa saber, diretamente no seu e-mail. É rápido e gratuito.
Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!









