
Na semana de alta-costura que terminou na quinta-feira (09.07), estilistas brincaram com o tempo, fizeram uma ode à arte e mostraram a importância das histórias — reais ou não — como motor da criatividade. E, mesmo sendo uma temporada de inverno, os desfiles deixaram um clima leve, lúdico e fresco no ar. Confira abaixo os detalhes do que vimos em Paris e em Roma:
Chanel
Getty
Na Chanel, a viagem no tempo proposta por Matthieu Blazy começou pela infância, logo no convite para o desfile: um pingente com inscrições que remetiam ao conto de “João e o Pé de Feijão”. A fábula continuou na passarela, adornada por flores gigantes e acessórios lúdicos: bolsas em formato de feijões coloridos, saltos que são ovos, trepadeiras e vagens com pérolas no lugar dos grãos. Outros contos, como “O Gato de Botas” e “O Patinho Feio”, também fizeram parte do repertório de Matthieu.
A silhueta tubular, código da maison abraçado pelo estilista, surgiu em um xadrez de tweed sobre um vestido de voal que, de perto, revelava brotos de feijão bordados e também em cisnes ornamentados sobre um vestido de chiffon. Com irreverência e sem ser infantil, Matthieu nos transportou ao melhor desse imaginário.
Chanel
Getty
Para honrar o espírito libertário de Coco Chanel, Matthieu também deu um fast-forward na estrutura da alta-costura e colocou a noiva, que costuma encerrar os desfiles, no meio das modelos, com um simpático e leve vestido de cintura deslocada para o quadril, assinatura dele. No encerramento, em vez de se casar com o príncipe do conto de fadas, a mulher Chanel usa um sensual vestido preto com acabamento em ráfia. Um revenge dress, ou vestido de vingança, desafiando convenções em um momento em que as redes sociais são dominadas por casamentos de celebridades.
Wun, Viktor, Iiris
Getty
A infância foi tema também de Robert Wun, que, com sua coleção Child’s Play, trouxe bexigas, coelhinhos e bonecas (com chifres, mas bonecas) para a passarela, também interessado no diálogo entre fantasia e técnica.
A passagem do tempo inspirou ainda a dupla Viktor & Rolf, sempre destinada a surpreender a audiência, que apresentou a coleção apenas com duas modelos de idades diferentes que, em uma performance, funcionavam como espelho uma da outra.
Outra estilista que acelerou o tempo foi Iris van Herpen, que criou um vestido feito com plasma, o primeiro da história, incandescente e envolto em um tubo de vidro. Plasma é o quarto estado da matéria, obtido por meio de gases em altas temperaturas, e o material que dá brilho às estrelas, tema da coleção proposta pela holandesa, inspirada no espaço sideral.
Schiap
Getty
Outro a trazer novos materiais às apresentações de alta-costura foi Daniel Roseberry, que, na Schiaparelli, exibiu, em uma iluminada passarela no Petit Palais, peças e próteses de látex e silicone com acabamentos sublimes. Como ele escreveu aos convidados: a alta-costura sempre transformou o ordinário em extraordinário.
A paleta foi outro destaque. O estilista escolheu cores presentes no fundo do mar: rosa-lagosta, violeta, tangerina, salmão e verde-menta. A combinação resultou em um desfile que celebra a excelência com leveza e alegria.
Na plateia, Bad Bunny, nossa capa de fevereiro, roubou os holofotes com seu terno manteiga customizado e gravata de trança.
Balenciaga
Getty
Já o tempo de Pierpaolo Piccioli na Balenciaga finalmente começou.
Em seu texto de apresentação, o estilista diz que a estreia na alta-costura da Balenciaga é uma homenagem aos princípios e uma celebração da intenção e da essência da marca, no que chamou de fundamentalismo da alta-costura.
Por isso, ele mergulhou nos arquivos do fundador espanhol e trouxe um espetáculo multicolorido de vestidos que dialogam também com seu próprio passado na Valentino, mostrando que Cristóbal Balenciaga está presente na sua formação como estilista.
Pierpaolo criou uma passarela imponente dentro da Cidade Universitária Internacional de Paris, onde alguns estudantes se acomodaram nas janelas para assistir à apresentação. Sob um sol escaldante, a primeira modelo desceu uma escadaria vestindo uma jaqueta balão vermelha feita com plumas de seda, camiseta em gazar, tecido criado por Cristóbal e reintroduzido pelo italiano, e calça em lã bege, carregando a dose de emoção peculiar ao estilista, que contrasta com suas linhas precisas.
As referências às produções consagradas de Cristóbal eram explícitas: Gigi Hadid com um headpiece de plumas que envolvia seu rosto, uma modelo com a cabeça coberta por um véu e vestidos bolero balão em pétalas de organza e tule pink, bordadas em seda gazar.
Balenciaga
Getty
Também alinhado com o espírito do tempo, Pierpaolo desceu as mesmas escadas e agradeceu aos convidados junto à sua equipe, que teve os nomes mencionados nos descritivos dos looks disponíveis aos convidados, revelando não somente as mãos que trabalharam neles, mas também a autoria — algo raro na indústria.
Dior
Getty
Jonathan Anderson foi outro que escolheu exaltar o poder das mulheres ao homenagear, nesta coleção, a escultora e artista norte-americana Lynda Benglis, conhecida por suas instalações feministas. Na sua essência, o trabalho de Linda questiona o que é uma escultura e borra as fronteiras da técnica ao misturá-la com outras, como a pintura, e inovar em materiais. É um princípio semelhante ao que Jonathan tem feito na Dior ao derreter as estruturas da Bar Jacket, por exemplo. Agora, ela vem em lã cinza plissada, com forro de seda salmão e acabamento desfiado. E se de longe suas peças parecem derreter graças ao peso, de perto se revelam leves e de construções extremamente elaboradas. Na passarela, destacaram-se os vestidos plissados metálicos, um tailleur azul com bordados e um vestido-leque, que dialogam diretamente com a obra de Lynda. Ela, aliás, assinou duas versões da Lady Dior apresentadas no desfile.
Outro ponto positivo para Jonathan foi a exposição que ele montou na marquise que abrigou o desfile, nos jardins do Museu Rodin, onde o público pôde conferir peças da passarela, obras de Linda e vestidos do arquivo da maison, revelando o fio que conduziu sua imaginação nesta coleção.
Fendi
Getty
A temporada terminou em Roma, com a estreia de Maria Grazia Chiuri na alta-costura da Fendi. A estilista escolheu apostar nos básicos e essenciais ao apresentar sua coleção toda em branco, preto e pitadas de bege. O desfile aconteceu em meio a obras de arte na Galeria Nacional de Arte Moderna e Contemporânea.
Fiel aos seus códigos, como o próprio duo preto e branco, rendas e transparências, desta vez Maria Grazia veio mais minimalista e também com grafismos. Ela reforçou seu ponto de vista feminino ao apostar em uma silhueta afastada do corpo que, como escreveu na apresentação aos convidados, mais liberta do que aprisiona as mulheres que a vestem. Uma exceção no momento em que as marcas investem em silhuetas skinny ou apostam em roupas com curvas estruturais para desenhar corpos magros.
O diálogo com a arte proposto por Maria Grazia incluiu ainda uma exposição que reedita outra, realizada em 1985 para celebrar os 20 anos de Karl Lagerfeld na casa. Croquis, moldes e casacos também estão disponíveis à visitação do público geral. Há 40 anos, a exibição causou polêmica ao colocar peças de roupa dentro de um museu e levantar o hoje conhecido debate sobre se moda é arte. Ao mergulhar nos códigos de sua cidade natal e nos arquivos de Karl, Maria Grazia também mostra que a moda depende de boas histórias (reais ou contos de fadas) para ser bem contada.
Source link









