O projeto 'Futuros Verdes no Nordeste' iniciou suas atividades para identificar oportunidades econômicas, setores produtivos, capacidades e competências cruciais para a transição da região em direção a uma economia de baixo carbono. Esta iniciativa é uma colaboração estratégica entre o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR).
A proposta do projeto é dialogar com especialistas e representantes do setor produtivo, transformando o conhecimento sobre sustentabilidade em diretrizes estratégicas que respeitem a diversidade territorial do Nordeste. O mapeamento também visa delinear as necessidades de formação e capacitação profissional, adaptando-as às novas demandas impostas pelas mudanças climáticas e pela evolução dos modelos produtivos.
Diogo Araújo, biólogo e analista do CESAR, além de co-coordenador do projeto, sublinha que a transição para uma economia de baixo carbono não se concretiza de maneira automática. Ele enfatiza que as oportunidades e as transformações não se manifestam naturalmente, justificando a criação do 'Futuros Verdes no Nordeste' para navegar por essa complexidade inerente.
Desafios e Potencialidades Climáticas na Região
O Nordeste enfrenta, de forma simultânea, alguns dos maiores desafios impostos pelas mudanças climáticas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) classifica a Caatinga como um dos biomas globalmente mais vulneráveis à desertificação. Dados do Mapbiomas de 2025 revelam que três dos cinco estados brasileiros com maior desmatamento eram nordestinos (Maranhão, Piauí e Bahia). Adicionalmente, a Climate Central aponta que quatro das sete cidades brasileiras mais ameaçadas pela elevação do nível do mar estão na região: Recife, São Luís, Fortaleza e Salvador.
Contrastando com esses desafios, a região apresenta um vasto leque de potencialidades para o desenvolvimento de alternativas produtivas mais sustentáveis. O Nordeste é responsável por impressionantes 92% de toda a energia eólica gerada no Brasil, abriga cinco das dez maiores usinas solares do país e tem no turismo uma significativa fonte de geração de receita e emprego.
Transformando Potencial em Desenvolvimento: Perspectiva da Indústria
Mário Cardoso, gerente de Recursos Naturais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), destaca que as oportunidades podem ser ainda mais amplas. Ele menciona o potencial na bioeconomia, na rica biodiversidade da Caatinga, na produção de biomassa e em diversas formas de energia renovável, incluindo etanol, solar e eólica.
Cardoso, contudo, levanta um questionamento fundamental: 'Como transformar essa potencialidade em desenvolvimento?'. Para ele, a resposta é multifacetada, envolvendo a articulação da cadeia de produção, a demanda do setor produtivo, o potencial de mercado, a viabilidade técnica e, crucialmente, a capacidade de implementação.
Ele exemplifica que, embora existam locais ideais para a produção de energia eólica, sua efetivação depende de infraestrutura de transmissão. O potencial, isoladamente, não gera desenvolvimento, exigindo uma estratégia que contemple condições favoráveis, infraestrutura adequada, regulação clara e suporte contínuo. Não existem soluções simplistas ou pré-definidas.
A Capacitação Profissional como Pilar da Economia Verde
A capacidade de implementar as inovações da economia verde está intrinsecamente ligada à formação de profissionais qualificados. Nicolis Amaral, do Instituto Clima e Sociedade (iCS), defende a necessidade urgente de reajustes na formação profissional para preparar os futuros trabalhadores para os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Nicolis explica que 'as profissões começam a se transformar por demanda'. Ela utiliza sua própria trajetória como exemplo: de engenheira química com foco em petróleo, ela migrou para a especialização em descarbonização através de cursos complementares, ilustrando a flexibilidade necessária no mercado de trabalho atual.
Participante ativa do projeto que mapeia o Nordeste, Nicolis reitera que 'tudo que é demandado é a transformação e o emprego verde vai exigir uma transformação contínua'. Ela argumenta que, onde há demanda, mercado, projetos e investimentos, a empregabilidade surge como uma consequência natural e direta.
Mário Cardoso, da CNI, conclui que a conversão das vastas potencialidades regionais em desenvolvimento efetivo exige planejamento estratégico e agilidade. Ele adverte que empresas que não adotam processos mais sustentáveis correm o risco iminente de perder competitividade e espaço no mercado global, em face das crescentes exigências ambientais.









