A discussão sobre terapias experimentais para lesão medular tem gerado grande expectativa entre famílias, pacientes e profissionais de saúde. Esta é uma condição que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), afeta 15 milhões de pessoas globalmente, impactando profundamente a mobilidade, autonomia e qualidade de vida.
Contudo, a evidência científica atual já define um 'padrão ouro' para o tratamento. Ele consiste na abordagem cirúrgica, quando indicada, aliada a um programa de reabilitação estruturado, intensivo e contínuo. Este trabalho deve ser conduzido por uma equipe interdisciplinar gerenciada e integrada a um percurso assistencial que assegure a continuidade do cuidado. Ignorar essa etapa é comprometer significativamente a autonomia futura do paciente.
Tratamento da Lesão Medular: O que a Ciência Comprova
Enquanto grande parte do debate público se volta para terapias inovadoras em desenvolvimento, o Brasil ainda enfrenta dificuldades em garantir o acesso a etapas do tratamento já respaldadas pela ciência e reconhecidas como primordiais.
Na rede pública, a estrutura principal de assistência são os Centros Especializados em Reabilitação (CERs), que totalizavam 324 unidades em 2025. Entretanto, a oferta permanece majoritariamente ambulatorial e insuficiente para atender de forma homogênea a demanda de pacientes que necessitam de cuidados mais intensivos e contínuos. O acesso à atenção especializada é restrito, especialmente considerando a disponibilidade, acomodação e adequação da oferta.
Desigualdade no Acesso à Reabilitação no Brasil
No setor privado, a oferta também não é abrangente. Embora existam iniciativas relevantes, elas tendem a se concentrar em grandes centros urbanos e capitais, resultando em uma distribuição desigual pelo território nacional.
Essa escassez se reflete também no número de profissionais. A fisiatria, especialidade médica dedicada à reabilitação para avaliar funcionalidade, definir objetivos terapêuticos e coordenar equipes interdisciplinares, representa apenas 0,2% dos especialistas médicos no país, um dos menores contingentes nacionais.
Demanda Crescente por Reabilitação Preocupa Especialistas
O desafio se amplia ao observar a dimensão da demanda potencial. Dados recentes do IBGE, pela PNAD Contínua de 2022, indicam que o Brasil contava com 18,6 milhões de pessoas com deficiência.
Paralelamente, o envelhecimento populacional e o aumento da sobrevida após eventos agudos – como AVC, traumas, internações prolongadas e pós-COVID – elevam a necessidade de reabilitação. Isso intensifica a pressão sobre uma rede assistencial que ainda opera de maneira desigual em todo o território.
Defender a ciência não se limita a investir em novas descobertas, mas também a assegurar o acesso ao que já comprovou eficácia. No contexto da lesão medular, isso implica garantir que o paciente receba, no tempo certo, o melhor ambiente de cuidado com intensidade terapêutica compatível à sua fase de recuperação.
É fundamental que, além de pesquisar e debater o que o futuro pode trazer, a população tenha acesso garantido ao que já sabemos que funciona.
Simone Lino é médica, especialista em Fisiatria, gerente médica de reabilitação do Hospital Valsa de Reabilitação, com atuação em ambiente hospitalar e ambulatorial desde 1990.
Fonte: https://saude.abril.com.br









