Uma estreita via marítima localizada na entrada do Mar Vermelho, entre o Iêmen e o Djibuti, tem servido como uma válvula de escape para uma parcela significativa do petróleo do Oriente Médio. Essa rota vital agora parece cada vez mais ameaçada.
Há semanas, os rebeldes Houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, vêm ameaçando a navegação no estreito de Bab al-Mandeb, tentando abrir uma nova frente na guerra entre Teerã e Washington, que já entra em seu sétimo mês.
Nas últimas 48 horas, os Houthis apertaram drasticamente o controle sobre a rota marítima, capturando tanto a cidade portuária de Mocha quanto — segundo fontes do governo iemenita — a estratégica ilha de Perim, localizada no meio desse gargalo marítimo.
O estreito há muito tempo é uma artéria vital do comércio global, mas tornou-se significativamente mais importante desde que a guerra entre os EUA e o Irã efetivamente fechou o vizinho estreito de Ormuz.
Nos últimos meses, a Arábia Saudita utilizou essa rota para exportar milhões de barris de petróleo. Sem o estreito de Bab al-Mandeb, uma quantidade menor de petróleo poderá deixar a região. Além disso, será necessário utilizar rotas muito mais longas, alimentando a inflação ao acrescentar atrasos e custos às tarifas de transporte marítimo, que já estão elevadas.
“O Bab al-Mandeb era uma tábua de salvação. Perder essa tábua de salvação serviu como um alerta para o mercado de petróleo sobre como a situação atual é insustentável”, disse Richard Bronze, cofundador da Energy Aspects, à CNN.
Fluxos de petróleo ‘despencaram’
Antes da guerra, cerca de 20 milhões de barris de petróleo transitavam diariamente pelo estreito de Ormuz, representando aproximadamente um quinto do fornecimento mundial. Depois que essa via marítima foi fechada, a Arábia Saudita começou a redirecionar o petróleo bruto por seu oleoduto de leste a oeste e a desembarcar os barris no porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
No auge, cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo bruto por dia eram exportados a partir de Yanbu, sendo que a maior parte — aproximadamente 3 milhões de barris por dia — saía da região pelo Bab al-Mandeb, segundo Bronze.
O fluxo de petróleo saudita pelo Bab al-Mandeb “despencou” para cerca de 400 mil barris por dia em agosto devido à ameaça dos Houthis e agora está ainda mais baixo, afirmou Bronze.
Para evitar o estreito, muitas cargas de petróleo precisam seguir uma rota muito mais longa e tortuosa para chegar à Ásia: subir pelo Canal de Suez até o Mediterrâneo, descer pela costa oeste da África, contornar o extremo sul do continente e, então, atravessar o oceano Índico — uma viagem épica que acrescenta cerca de um mês ao tempo de transporte e eleva os custos do frete.
“Vimos muitas refinarias na Ásia saindo em busca de alternativas. Com isso, elas estão fazendo lances maiores por cargas de petróleo de outras regiões, e esse é o principal fator que explica por que os preços do petróleo têm subido tão acentuadamente”, disse Bronze.
A notícia de que os Houthis haviam capturado posições estratégicas no Mar Vermelho ajudou a fazer os preços do petróleo dispararem na quinta-feira. O Brent, referência global do petróleo, e o WTI, referência nos EUA, subiram mais de 7%, atingindo US$ 108 e US$ 103 por barril, respectivamente — os níveis mais altos desde maio.
Johannes Rauball, analista sênior de petróleo bruto da Kpler, afirmou que uma combinação de fatores — as interrupções no transporte marítimo no Mar Vermelho, os cortes na produção de petróleo pela Arábia Saudita e os ataques ucranianos contra a infraestrutura energética da Rússia — fez com que os preços globais do petróleo ultrapassassem US$ 100 por barril.
“Sem uma solução rápida à vista e com essas interrupções previstas para continuar, as refinarias estão sendo cada vez mais pressionadas a garantir petróleo bruto adicional, o que está elevando os preços do petróleo bruto”, disse ele à CNN.
O petróleo bruto também é usado para produzir diesel, conhecido como o combustível que movimenta a economia global, pois abastece caminhões, tratores, trens de carga e outros veículos comerciais. Os preços do diesel nos Estados Unidos subiram mais de 50% desde o início da guerra e, na sexta-feira, ultrapassaram US$ 6 por galão pela primeira vez, segundo dados da AAA.
Os preços da energia são um dos principais motores da inflação de forma mais ampla, que voltou a subir nas principais economias nos últimos meses — aumentando o temor de elevações nas taxas de juros que, por sua vez, levariam a custos mais altos de empréstimos para os consumidores.
Cada navio é “um alvo em potencial”
As empresas de transporte marítimo, no entanto, já têm bastante experiência em evitar a rota pelo Mar Vermelho.
No fim de 2023, os Houthis começaram a atacar embarcações comerciais que passavam pelo estreito de Bab al-Mandeb, em retaliação à guerra de Israel em Gaza. Os ataques levaram as empresas de navegação a utilizar a rota mais longa, acrescentando semanas às viagens e obrigando-as a gastar mais com combustível, seguros e salários dos trabalhadores marítimos.
Desde então, Peter Sand, analista-chefe da empresa de dados sobre fretes Xeneta, estima que o número de embarcações que atravessam o Bab al-Mandeb tenha caído entre 60% e 70%. O número de travessias também caiu 46% nos últimos dois dias, após a intensificação dos combates.
Ainda assim, ele não espera que as travessias cheguem a zero, observando que as empresas de navegação estão acostumadas a operar em ambientes de alto risco.
Mesmo assim, afirmou ele, “cada navio que passa por lá… representa um alvo em potencial”.









