• Governo vê direita pragmática e sem liderança de Milei na América do Sul

      Apesar da escalada na crise diplomática com a Argentina, o governo brasileiro está convencido de que novos líderes de direita na América do Sul vão seguir uma cartilha de relações pragmáticas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não têm interesse em emular a postura de enfrentamento ao petista adotada por Javier Milei.

      Um dos exemplos citados no Itamaraty foi o depoimento da presidente recém-empossada do Peru, Keiko Fujimori, em um encontro com embaixadores latino-americanos ainda durante a campanha eleitoral.

      Na reunião, segundo relatos feitos à CNN, Keiko reconheceu diferenças ideológicas com o petista, mas disse que Lula era o único líder na América do Sul capaz de unir a região.

      Sinais de diálogo e pragmatismo também foram enviados, segundo a diplomacia brasileira, pelo colombiano Abelardo de la Espriella — que se inspira no salvadorenho Nayib Bukele, uma das principais referências da direita na América Latina, com um discurso de tolerância zero na segurança pública e de defesa radical da liberdade de expressão.

      No fim de junho, ao vencer as eleições presidenciais na Colômbia e receber um cumprimento oficial de Lula, Espriella respondeu ao petista no X (antigo Twitter): “O continente americano enfrenta problemas comuns de natureza transnacional, que só podem ser superados por meio de um trabalho conjunto, respeitoso e soberano”.

      A mensagem do novo presidente foi interpretada como um aval à continuidade de políticas comuns na região amazônica e à blindagem do comércio bilateral contra eventuais discordâncias ideológicas.

      De acordo com fontes diplomáticas, os recados emitidos por Santiago têm sido na mesma linha. O chileno José Antonio Kast, que assumiu em março, já se reuniu com Lula duas vezes — uma antes e outra depois da posse — e deixou clara a disposição de trabalhar com o Brasil.

      O candidato à Presidência da República pelo PL (Partido Liberal), Flávio Bolsonaro, foi ao Chile para a posse do direitista. Lula preferiu não comparecer. Mesmo assim, segundo interlocutores no Itamaraty, os dois governos têm trabalhado juntos em diversas frentes e não houve mudança no status do relacionamento desde a saída do esquerdista Gabriel Boric.

      Por tudo isso, o governo brasileiro acredita que a influência de Milei hoje é limitada na vizinhança e descarta que outros líderes sul-americanos sigam o argentino em uma postura de enfrentamento a Lula.

      Na avaliação do Itamaraty, mesmo pertencendo ao mesmo espectro político que o chefe da Casa Rosada, os demais presidentes de direita na região têm uma tendência de limitar o espaço para a ideologia.

      Eles buscam, segundo essas avaliações, um canal aberto e próximo com o americano Donald Trump — mas sem jogar fora um bom relacionamento político com o Brasil.

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