• “Quando vejo uma artista de mais de 90 anos em cena, enxergo um futuro para mim”


      Às 5h30 da manhã Regina Miranda já está em frente à enorme janela de seu apartamento, olhando a paisagem do Jardim Botânico, sentindo o cheiro do mato, do mar… É assim, usando o aparador que foi projetado com a altura das barras das aulas de balé, que ela começa a acordar suavemente seu corpo. “Esse é meu ritual diário. E, ao contrário do que possa parecer, faço isso por prazer. Não funciono bem a partir da palavra disciplina. Eu funciono muito pra tudo com as palavras desejo e prazer”, diz a bailarina, coreógrafa e pesquisadora.

      Aos 78 anos, ela se prepara para mais um grande desafio da sua carreira: dia 30 de julho, leva para o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro uma nova montagem de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, que ocupará 16 mil metros quadrados dos jardins com mais de 120 intérpretes. Em um formato imersivo, o espetáculo traz artistas de diferentes gerações, indo dos 18 aos 90 anos. “É uma celebração aos 35 anos da primeira montagem, inclusive com interpretes que participaram daquele momento”, conta animada.

      Formada em balé clássico no Rio de Janeiro, Regina viveu uma temporada em Nova York, EUA, onde estagiou na Joffrey Ballet School, formou-se em analista de movimento pelo Laban-Bartenieff Institute of Movement Studies e estudou dança e teatro na Juilliard School. Esse mix cultural está refletido em suas obras, marcadas por performances não convencionais e experiências cênicas imersivas, como esta nova montagem. “Dançar é o que você tem a dizer em movimento. E todas as idades têm algo a dizer”, reflete.

      Olhar a vida pelas possibilidades que ela ainda apresenta e não pelo que não dá mais tempo para ser feito, é o drive que move Regina. “Quando vejo uma artista de mais de 90 anos em cena, também vejo um futuro para mim. A gente não sabe quanto tempo tem. O que importa é o que faz com o tempo que recebeu. Eu estou me planejado para ver a aurora boreal!”

      Vogue: Você acorda entre cinco e cinco e meia da manhã para fazer aula de ballet. Esse ritual tem a ver com disciplina, com necessidade?

      Regina Miranda: Com Prazer. Nunca funciono muito pela disciplina, e sim pelo desejo. Quando acordo, venho para a sala. Tenho uma vista linda aqui de casa. Sinto o cheiro do mar, da floresta, do vento. Vou despertando o corpo devagar. É um momento de sintonia entre o meu corpo e o mundo. Gosto de dizer que mando o sol aparecer.

      O que o seu corpo sabe hoje que ele não sabia aos 40 ou aos 50 anos?

      Quando eu era bailarina clássica, tudo era levado ao limite. O salto mais alto, a perna mais alta, a abertura máxima. Não existia uma cultura de preservação corporal. O importante era ir sempre além. Isso começou a mudar quando passei a coreografar. De repente, meu instrumento de trabalho deixou de ser apenas o meu corpo. Passei a cuidar do corpo das outras bailarinas e entendi que precisava preservar esse instrumento. Depois esse olhar voltou para mim também. Eu tenho muita facilidade corporal até hoje. Minha perna chega aqui na altura do ombro, fácil. Sem nem estar quente. Mas entendi que não dá mais para ser assim. Eu não faço mais o impossível. Até faço , mas uma vez. Não faço a segunda. Eu posso fazer um double tour, um duplo giro no ar. Dá pra fazer. Mas depois eu vou me machucar. Então, vou buscar a melhor forma. E a melhor é também aquela que não me machuca. É a que preserva e prolonga o movimento. Quero continuar dançando até morrer.

      Existe uma inteligência corporal que só chega com a maturidade?

      Existe. Um corpo mais velho comunica coisas que um corpo jovem ainda não viveu. Durante muito tempo, a dança ficou muito ligada à destreza técnica, quase como o esporte de alto rendimento. A diferença é que a dança não é uma competição. Dança é aquilo que você tem a dizer em movimento.
      A presença é uma técnica. A escuta é uma técnica. A quietude também. Tudo isso se aprofunda com a maturidade. Um corpo mais velho traz uma história, e ele amplia o próprio conceito de beleza.

      Quando alguém diz “Nossa, você nem parece que tem 78 anos”, como você se sente?

      Primeiro eu sorrio, porque sei que a intenção é boa. Depois respondo: “Parece, sim.” É assim que uma mulher de 78 anos pode ser. Existem muitas maneiras de chegar aos 78 e muitas formas de beleza. Quem decidiu que existe uma única imagem para essa idade? É importante a gente desmontar esses padrões.

      Atualmente falamos muito sobre envelhecer bem, mas pouco sobre envelhecer criando. Como você vê isso?

      Na música, no teatro e nas artes plásticas existem muitos artistas que continuam criando até muito tarde. A dança demorou mais para aceitar isso porque ficou muito associada ao desempenho físico. Mas criar não depende apenas da capacidade atlética. Depende de experiência, repertório e presença. Na minha companhia, a Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos, que fundei em 1980, o núcleo trabalha junto há décadas e é feminino. Nós fomos amadurecendo juntas. Isso mudou a minha linguagem como coreógrafa, porque passei a me interessar justamente pelo que esses corpos mais velhos tinham para dizer.

      Você sente que conquistou uma liberdade que só veio com a maturidade?

      Sem dúvida. Como artista e como mulher. Quando eu tinha 14 anos, estudei tragédia grega na escola e li uma frase que dizia: “Triste é o destino das mulheres que ficavam em casa esperando os maridos voltarem da guerra”. Naquele dia eu pensei: esse não será o meu destino.
      Esse desejo de atuar no mundo sempre esteve comigo. Hoje ele aparece também na maneira como conduzo minha companhia. Não trabalho com uma multidão anônima. Conheço cada artista. Meu trabalho é multiplicado pelos corpos das pessoas com quem crio.

      Por que revisitar A Divina Comédia 35 anos depois?

      Porque hoje encontrei um motivo. Em 1991, ela falava do inferno depois da morte. Agora, me interessa trazer uma versão para falar dos infernos que conhecemos em vida. Existem situações que parecem paraísos, se apresentam com um enorme glow, e acabam produzindo frustrações enormes. A nova montagem fala sobre acolher as trevas para conseguir viver a luz. Todos nós conhecemos inferno, purgatório e paraíso ao longo da vida.
      Vivemos um momento em que as recompensas da vida são desejadas de maneira muito rápida. Todo mundo quer ficar com o corpo perfeito com cinco minutos de exercício por dia. Deixa eu dizer uma coisa: não vai ficar. Isso só vai acontecer se você fizer bem para seu corpo 24 horas por dia.

      Nesta montagem há pessoas de mais de 90 anos interpretando personagens de 20.

      Sim, porque idade não define personagem. Tem o jovem de 90 e o velho de 20. Isso me interessa muito mais do que uma representação literal. Quando vejo uma artista de mais de 90 anos em cena, também vejo um futuro para mim. A gente não sabe quanto tempo tem. O que importa é o que faz com o tempo que recebeu.

      O que você deixou de aceitar com a maturidade?

      Não me interessa trabalhar com quem chega apenas com a própria imagem ou com a própria vaidade. Se não quer participar do processo, nem venha. Também deixei de gastar energia querendo vencer discussões. Hoje prefiro indicar um livro, uma referência. Considero minha energia preciosa demais para ser desperdiçada.

      O que ainda faz você levantar da cama todos os dias?

      Nunca me fizeram essa pergunta. Escrevi uma frase, muitos anos atrás, numa peça chamada Pernas Vazias: “Tenho medo de que um dia nada nem ninguém me faça levantar e olhar o dia com alegria.” Esse continua sendo meu único medo.
      Não tenho medo da morte. Ela significa que acabou ou que é uma nova viagem? Eu não sei. E essas duas coisas me interessam descobrir. Acho que por isso não tenho medo de morrer. Tenho medo de perder o desejo. Às vezes vou triste para a janela. Minha vida nunca foi feita apenas de alegrias. Mas continuo olhando para a luz. Porque aprendi uma coisa: nem sempre o desejo de movimento está presente. Mas fazer o movimento, movimenta o desejo. Então é isso, voltamos ao início da nossa conversa. O que me faz levantar todos os dias? Saber que vou despertar meu corpo olhando para a paisagem. Seja com sol, seja com chuva.



      Source link

      Compartilhe:

      WhatsApp
      Facebook
      Telegram
      Twitter
      Email
      Print
      VEJA TAMBÉM

      Vagas de emprego em São Paulo - SP

      Encontre a vaga ideal em São Paulo Confira salários e avaliações de empresas.
      Últimas Notícias