“Você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo.” Esta é a frase de Angela Davis que Adriana Salay, doutora em História Social e cofundadora do projeto Quebrada Alimentada, carrega no peito – e na vida. Adriana é casada com o chef Rodrigo Oliveira, que acaba de inaugurar uma terceira unidade do festejado restaurante Mocotó na Vila Clementino. Sucesso de público e crítica, a casa que colocou a cozinha sertaneja no mapa da gastronomia mundial chegou agora à zona sul de São Paulo – importante marco de uma trajetória que começou em um bairro periférico do norte da cidade, a Vila Medeiros, e que serve muito mais do que comida de excelência. O Mocotó serve também pertencimento, inclusão e um profundo senso de comunidade.
Adriana é peça-chave nessa engrenagem que transformou a boa mesa do restaurante em força-motriz para impactar diretamente a vida de famílias em situação de vulnerabilidade em seu entorno. Em março de 2020, assim que o salão do Mocotó fechou devido ao lockdown da pandemia, o casal começou a distribuir marmitas na porta. Nascia ali o Quebrada Alimentada, que já serviu mais de 300 mil refeições para a comunidade da Vila Medeiros, e que no ano passado inaugurou a Cozinha Solidária Jardim Julieta, em uma ocupação da zona norte onde vivem cerca de 800 famílias. Construído em parceria com as Cozinhas Solidárias do MTST e o Instituto Capim Santo, com apoio do Instituto Bia Rabinovich, o espaço distribui 500 refeições por dia, de segunda a sexta, e também funciona como uma escola que oferece formação profissional gratuita em gastronomia.
É grande. É gigante. E foi o sucesso dessa articulação de diferentes agentes em uma cadeia que há mais de 6 anos trabalha para tirar as pessoas da insegurança alimentar que me levou a procurar a Adriana. Gestora do projeto e professora no Departamento de História da USP, ela pesquisa um dos temas mais importantes e doídos da nossa sociedade: a fome. “Eu venho de uma família de trabalhadores. A gente morou numa casa de fundos, morou na favela por um tempo e eu sempre estudei em escola pública. Enfim, uma família de baixa renda que nunca ficou efetivamente em situação grave de fome, sem nada pra comer em casa, mas com ausências dentro dessa casa”, ela conta.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/f/w/CaJ6GYRrCLEO6OE0lqFA/adriana-e-rodrigo-novo-mocoto-.jpg-1-.jpeg)
O reconhecimento desse contato com a fome como sensação, no entanto, só aconteceu anos depois, quando a historiadora se debruçou a respeito em seus estudos. Foram 6 anos de pesquisa no acervo pessoal do pensador pernambucano Josué de Castro e em toda sua produção. “Foi o Josué que me ensinou a ler a fome. E uma das coisas que ele fez foi me permitir ler a fome na pandemia, fazer uma diferenciação entre a fome cotidiana, que ele chamava de fome endêmica, e a crise de fome, fome epidêmica”, afirma. E quando a pandemia bateu à porta, Adriana logo entendeu que entraríamos em uma crise alimentar que exigiria ação. “Eu estava no doutorado, estudando o tema da fome, quando o Quebrada Alimentada surgiu. Mas ele surgiu também por conta da forma de enxergar o mundo do Rodrigo e da família dele, que eu admiro tremendamente, que é pensar um mundo coletivamente, em uma estrutura solidária.”
O papo aqui caiu em um parêntese sobre esse encontro entre uma historiadora da fome e um dos chefs mais aclamados e queridos do país. Descubro então que foi justamente essa questão que os uniu. Quando fazia o mestrado, Adriana entrou em contato com o sociólogo Carlos Alberto Dória, que tinha formado um grupo chamado C5 (Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo). Rodrigo Oliveira era presidente do grupo e as reuniões aconteciam no Mocotó, com representantes de frentes profissionais diversas para discutir assuntos ligados ao futuro da alimentação, como o uso das PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais). “Eu e o Rodrigo começamos a nos encontrar nesse centro. Depois de um tempo a gente se encontrou no sentido do amor”, ela relembra. “Temos visões muito parecidas sobre como a gente quer que o mundo seja. Esse é o grande encontro que a gente promoveu: um encontro de amor, mas também de expectativas sobre o mundo.”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/e/B/E5kgThQsacOBaZ28p3Xw/copia-de-mocoto-vila-clementino.jpg)
O Quebrada Alimentada é a realização concreta desse encontro de visões e expectativas. Mais do que saciar a fome, o projeto garante refeições diárias dignas, nutritivas e saudáveis. “O Rodrigo costuma dizer que a gente quer deixar a quebrada bem acostumada, porque não é apenas servir um prato de comida, mas servir um prato de comida gostosa que as pessoas merecem comer”, Adriana define. E isso acaba por abrir espaço para que essas pessoas possam se preocupar com outras questões da vida.
A historiadora explica que há estudos sobre comportamento econômico que apontam que, quando alguém está em sensação de insegurança alimentar, pensa unicamente em matar sua fome e a dos filhos. É uma sensação de urgência batizada de ‘tunneling’, ou efeito túnel, em português, que faz com que essa preocupação urgente e inevitável se sobreponha a qualquer outra, como fazer projetos de médio e longo prazo, pensar em educação ou cuidar da saúde mental, entre tantas. “Nosso projeto tem a esperança de mostrar para essas famílias, principalmente para as mães, já que são as mulheres que organizam a comida dentro de casa, que se elas tiverem essa segurança de que vão ter comida, talvez possam se preocupar com outros elementos da vida”, reflete.
Outro fator importante dessa equação são as formações profissionais que o projeto promove, para que as pessoas consigam trabalhos mais dignos, aumentem a renda familiar e conquistem uma melhoria real de vida. “Tudo isso para também promover um efeito, um sentido de comunidade”, Adriana sublinha, contando que a cozinha solidária reúne a comunidade para celebrar datas como Dia das Crianças, Dia das Mães, Natal e festa junina, além de abrigar reuniões da associação de moradores, oferecer aulas de capoeira para as crianças e receber campanhas de vacinação do SUS. “Por vezes, vejo na nossa sociedade atual que esse sentido de comunidade está em crise. É difícil a gente encontrar lugares de coletividade. Ao promover esse espaço, a gente espera mostrar que o problema da fome não é do indivíduo nem da família. A fome é um problema coletivo e precisa ser resolvida coletivamente, o que pode ser um caminho para repensar a nossa sociedade.”
Hoje à frente de uma pesquisa mais ampla que faz com seus alunos na USP sobre a pandemia, a historiadora afirma que as crises são grandes oportunidades para hipertrofiar alguns fenômenos sociais que ficam escondidos e que só conseguimos ver – ou ver melhor – nesses momentos. Ela fala que desigualdades estruturais que às vezes ficam na sombra dos debates acabaram por saltar aos olhos, como a diferença de raça, classe e gênero nos números de óbitos, nos acessos à saúde e na questão fome. “Mas os relatos que a gente tem colhido também mostram outra face da crise, que é a solidariedade. Isso tem ficado bastante evidente na memória da pandemia: como muitas pessoas, em momentos de dificuldade, se organizaram e se ajudaram, foram solidárias umas com as outras; diversas organizações da sociedade civil surgiram na pandemia e mostraram caminhos coletivos e possíveis para a solução dos nossos problemas, o que tem me encantado nesse momento”, observa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_5dfbcf92c1a84b20a5da5024d398ff2f/internal_photos/bs/2026/r/7/EDojwnRVKWD4g0vT2wbA/cozinha-adrianaerodrigo.avif)
Pois o ponto fundamental desse projeto que já deu certo está aí: a solidariedade em rede, que não só salvou e salva vidas, como oferece ferramentas para que essas vidas possam mudar. “As pessoas foram absolutamente fundamentais para que o Quebrada Alimentada existisse e se tornasse viável – e ainda são”, conta a historiadora, destacando que Ivan Ralston já foi cozinhar com eles, Helena Rizzo doou duas de suas pinturas para o projeto, Fasano e Paola Carosella doaram seus estoques quando os restaurantes fecharam na pandemia – e a chef ainda preparou seu pato confitado para a comunidade da Vila Medeiros. “A gente também fez uma rifa de livros autografados de chefs do mundo, que foi um sucesso absoluto. Todas essas pessoas se comprometeram para que o projeto continuasse, o que mostra a potência desse setor na luta contra a fome”, Adriana comemora.
Volto agora ao início da coluna: a citação de Angela Davis. Muitas vezes achamos que não podemos fazer diferença de fato no mundo e acabamos por não fazer absolutamente nada. Mas o trabalho de Adriana, que transforma pesquisa acadêmica em ação direta contra a fome, diz o contrário. Termino, então, com a reflexão que ela mesma dividiu comigo: “em muitos momentos, eu acho que vamos falhar, que vai ser um fracasso, que não vamos conseguir acabar com a fome porque ela é um problema estrutural e o mundo está caminhando para uma hecatombe climática. Mas se a gente não agir como se pudesse mudar radicalmente o mundo, o que nos resta?”. E eu pergunto a vocês: resta algo? Mas creio que a resposta já foi dada – e muito bem dada – por quem arregaça as mangas e faz acontecer, dia após dia.
Instagram @drisalay
Instagram @quebradaalimentada
Instagram @mocotorestaurante
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!









