A Dercy foi taxada de pornográfica, imoral e indecente a vida inteira, e isso diz muito sobre como a imprensa via as mulheres nas artes e sobre o que se esperava delas. Pegue as vedetes do teatro de revista: esperava-se que fossem bonitas e que tivessem um humor ingênuo, quase embrutecido, que sugeria mulheres tão inocentes a ponto de parecerem desprovidas de inteligência. Muitas incorporavam esse papel da mocinha bonita e distraída. A Dercy jamais vestiu essa máscara. Sempre contrariou as expectativas de gênero depositadas sobre ela e sobre as outras mulheres, e nunca se rendeu à cobrança para que fosse recatada e pudica, ainda que à custa da própria objetificação, como acontecia com as vedetes, mulheres extremamente sexualizadas de quem, ao mesmo tempo, se exigia um comportamento que contradizia o que de fato se buscava nelas, o prazer masculino. A Dercy era engraçada numa época em que se dizia que o humor era uma qualidade mais masculina do que feminina. Os jornais chegavam a se surpreender com uma mulher dotada para a comédia. E ela dizia palavrão, o que não se esperava de uma mulher. Homens que agiam como ela nunca eram cobrados da mesma forma. O melhor exemplo é o Chacrinha, contemporâneo dela: também irreverente, com um humor que flertava com o grotesco, mas as críticas que recebia não se pareciam com as feitas a ela. Dele, quando muito, diziam que era louco. Dela, exigiam um comportamento exemplar por ser mulher, e a classificavam como pornográfica, como velha indecente. A Dercy também sempre teve predileção por homens mais novos, e foi muito criticada por isso, enquanto os homens que se relacionavam com mulheres bem mais jovens nunca enfrentaram a mesma cobrança.









