
Imagine um bacupari. Tente construir na sua mente a cor, o formato, o tamanho, a textura. Sinta o cheiro. A menos que você já tenha visto um bacupari antes, é pouco provável que alguma imagem se forme com nitidez. É no terreno do absolutamente desconhecido que a imaginação mostra seus limites. O que nunca nos foi apresentado dificilmente se torna pensável. E é assim que se constroem os limites invisíveis do nosso mundo.
Quando não há rosto, quem desenha o vazio carrega consigo os próprios fantasmas. Porque não deixou para o futuro nenhuma fotografia, pintura ou desenho que a identificasse, as imagens de Maria Firmina dos Reis — considerada a primeira romancista abolicionista do Brasil — nasceram de um conjunto de relatos, suposições e equívocos. Nem os anos nem o esforço de muitos estudiosos foram capazes de dissipar completamente essa sombra.
Até hoje circula nas redes como se fosse dela a imagem de Maria Benedita Bormann, escritora gaúcha, branca, que assinava seus textos como Délia. Em 2011, um quadro encomendado para a Câmara Municipal de Guimarães repetiu o mesmo rosto. Até mesmo o busto instalado na Praça do Panteão, na capital maranhense, em 1975, traz pouco as características do relato feito por aqueles que com ela conviveram. Mesmo na homenagem, foi esmaecida.
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Quando a substituição chega antes da apresentação, o falso vira o único rosto que se conhece. Essa é a dinâmica do apagamento. Ele não deixa uma lacuna visível, não dói como uma perda. Afinal, não se sente falta daquilo que nunca se soube que existia.
Maria Firmina, filha bastarda de mãe branca e pai negro, cresceu entre as bordas de um mundo que não sabia muito bem o que fazer com ela e, ainda assim, fez muito. Alfabetizada pela mãe, foi aos vinte e dois anos aprovada no concurso público que a tornaria a primeira professora efetiva a fazer parte do magistério maranhense. Deu aulas por muitos anos e, após se aposentar, fundou a primeira escola mista gratuita do Brasil. Sabia que podia transformar o mundo e trabalhou pra isso.
Na escrita, ao lado de Nísia Floresta, Ana Luisa de Azevedo Castro, Juana Paula Manso de Noronha, ela faz parte do grupo de mulheres que rompeu o silêncio que lhes era imposto. Sei “que pouco vale esse romance”, escreve no prólogo do seu livro mais famoso, Úrsula, “porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados.” Para as mulheres, a escrita era um ato de resistência. Elas recorriam ao registro para se fazer escutar.
O texto foi publicado em 1859, sob o pseudônimo de “Uma Maranhense”. O anonimato, comum a muitas escritoras da época, era uma proteção razoável para quem precisava dizer o que o Brasil ainda não estava pronto para ouvir. Permaneceu muito tempo no esquecimento, até que, em 1962, foi encontrado num sebo no Rio de Janeiro pelo historiador paraibano Horácio de Almeida.
Capa de “Úrsula”, de Maria Firmino dos Reis
Divulgação
No centro de Úrsula está um triângulo impossível: uma jovem apaixonada, o homem que ela ama e o tio cruel que torna impossível a realização desse amor. O algoz não é apenas um obstáculo; é a encarnação de tudo daquele que destrói tudo com a naturalidade de quem nunca foi contrariado. Maria Firmina não poupa o leitor: o romance mergulha fundo no ciúme, na crueldade e nas feridas que o cativeiro deixa em corpos e almas.
Maria Firmina instrumentaliza o romance popular com sua linguagem acessível e a estrutura que prendia o leitor e a leitora para colocar no centro da história quem a literatura brasileira insistia em ignorar: a mulher e o escravizado.
“Oh! Esperança! Só a tem os desgraçados no refúgio que a todos oferece a sepultura (…) Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a teu próximo como a ti mesmo – e deixará de reprimir com tão repreensível injustiça o seu semelhante!… Àquele que também era livre no seu país… Àquele que é seu irmão?”.
Essa é a voz de Túlio, o jovem negro escravizado que encontra Tancredo, o protagonista branco, e o salva. Como revela o título do primeiro capítulo: são duas as almas generosas. Firmina deu a Túlio o que a literatura do seu tempo negava aos escravizados: a palavra, a memória e a consciência da própria liberdade perdida.
Nos romances e poemas abolicionistas da época, o escravizado era geralmente descrito de fora. O que ela faz é outro movimento. Seus personagens negros têm a dimensão plena do humano. São sujeitos que narram, em primeira pessoa, não apenas a dor da escravidão, mas também a vida que existia antes dela. “A mente! Isso sim ninguém pode escravizar!”, afirma o personagem de Maria Firmina.
Quando teorias pretensamente científicas ainda se dedicavam a justificar a inferioridade da população africana e afrodescendente e a incapacidade feminina para tratar de assuntos públicos, uma mulher afrodescendente, nordestina e de origem humilde ergueu a própria voz. No interior do romantismo brasileiro, Maria Firmina dos Reis produziu um discurso pioneiro ao tornar visíveis as condições a que estavam submetidos negros e mulheres na sociedade do seu tempo. Mais do que escrever um romance, ela abriu espaço para algo então raro: que aqueles colocados à margem da história pudessem, enfim, contar a sua própria.
“A mulher é o outro, tanto quanto o negro”. Desde a primeira vez que li Constância Lima Duarte refletindo sobre Úrsula, me marcou a frase que anuncia que a ausência de liberdade do negro emana do mesmo sistema que subordina a mulher. No enredo, a jovem, quando se percebe presa ao espaço doméstico enquanto aguarda o seu príncipe, inveja a possibilidade de movimento do escravo alforriado.
Gabriela Prioli
Renata Zambello/Acervo Pessoal
A leitura alimenta a possibilidade de transformação porque abre, nos corações dos leitores, espaço a ser ocupado por personagens comuns, desconhecidos pessoalmente e com vivências muito diferentes. Ao acompanhar suas emoções, seus conflitos e suas perdas, os leitores são levados a admitir a possibilidade de que todas as pessoas compartilhem uma mesma estrutura íntima de sentimentos.
“As almas generosas são sempre irmãs.” É, por exemplo, na amizade entre Tancredo, o jovem branco, e Túlio, o jovem negro escravizado que o salva que a literatura amplia a capacidade de reconhecer humanidade onde ela então era negada.
Sempre digo que os leitores estão à procura de interlocutores. Num mundo de brutalidades, estamos todos à procura daqueles cujos pensamentos compreendam nossas angústias. Somos como Úrsula quando, “pela primeira vez, sentia a necessidade de uma alma que compreendesse a sua, de um pensamento que se harmonizasse com o seu”.
Numa conversa com o futuro, Maria Firmina termina o prólogo de seu romance mais famoso com um desejo: “sirva esse bom acolhimento de incentivo para outras, que com imaginação mais brilhante, com educação mais acurada, com instrução mais vasta e liberal, tenham mais timidez do que nós”.
Esse chamado atravessou mais de um século e meio. Chegou até nós. E se a “felicidade a que não viesse misturar sentimentos de angústia” ainda nos é familiar, temos hoje o que ela não tinha: a certeza de que não estamos começando do zero.
Imagine um bacupari.
O bacupari é uma fruta nativa do Brasil, encontrada sobretudo na Mata Atlântica e em regiões da Amazônia. Pertence à mesma família do mangostim. É pequena, geralmente redonda, de casca amarela e polpa branca, macia e perfumada. Seu sabor costuma ser descrito como doce com leve acidez, lembrando uma mistura delicada do mangostim, do pêssego e de cítricos suaves.
O bacupari sempre existiu. Apenas não fazia parte do nosso repertório.
Maria Firmina dos Reis também.
Em frutas ou na história da literatura brasileira, a imaginação acaba de ganhar mais um pedaço do mundo.
Fontes
ZIN, Rafael Balseiro. A dissonante representação pictórica de escritoras negras no Brasil: o caso de Maria Firmina dos Reis (1825-1917). Revista do Centro de Pesquisa e Formação, São Paulo, n. 3, p. 1-20, nov. 2016. Disponível aqui. Acesso em: 31 maio 2026.
DUARTE, Constância Lima. Maria Firmina dos Reis e a literatura afro-brasileira. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 13, n. 2, p. 437-456, maio/ago. 2005. Disponível aqui. Acesso em: 31 maio 2026.
DUARTE, Eduardo de Assis. Maria Firmina dos Reis e os primórdios da ficção afro-brasileira. Literafro, Belo Horizonte: UFMG, [s.d.]. Disponível aqui. Acesso em: 31 maio 2026.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
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