• ‘Não Sei Viver Sem Palavras’, documentário sobre Ignácio de Loyola Brandão, chega aos cinemas


      Logo nos primeiros minutos de Não Sei Viver Sem Palavras, Ignácio de Loyola Brandão faz uma observação curiosa: explica que seu nome se escreve com “g”, embora ele diga “Inácio”. Em seguida, se apresenta como escritor e cronista. A conversa, porém, logo toma outro caminho. Ele conta que gostaria de ter sido cozinheiro e que o sonho da vida inteira era dirigir cinema. Diz que fez crítica, conviveu com cineastas, mas nunca realizou um filme. “Eu ainda faço um filme. Esse é o Ignácio, aquele que quer fazer um filme”, afirma. É também esse lado menos conhecido do escritor que o documentário dirigido por seu filho, André Brandão, começa a acompanhar.

      Em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira (30.07), Não Sei Viver Sem Palavras acompanha a trajetória do escritor sem seguir exatamente o caminho esperado de uma cinebiografia. Ignácio é apresentado como aquilo que já se sabe sobre ele: jornalista, cronista, romancista, autor de mais de 40 livros, membro da Academia Brasileira de Letras e ex-diretor da Vogue Brasil. Mas o filme se interessa também pelo homem que passou a vida observando e guardando o mundo ao redor.

      André, que começou a filmar o pai durante a pandemia, quando voltou a morar com ele, constrói a narrativa a partir desse arquivo pessoal. Não demora para aparecerem as caixas cuidadosamente organizadas por Ignácio. Dentro delas estão fotografias, cartas, cartões-postais, programas de peças e exposições, recortes de jornal e dezenas de envelopes identificados à mão. Há também 38 rolos de Super-8 filmados pelo próprio escritor nos anos 70, com registros da família, de viagens, de São Paulo, Araraquara e até do nascimento do diretor.

      O que esse arquivo revela é um modo de viver. Para Ignácio, guardar sempre foi uma forma de continuar olhando, e o mesmo impulso que o fazia recortar uma notícia de jornal ou registrar uma viagem está presente nos livros. A vida cotidiana, para ele, nunca esteve separada da escrita. Essa relação surge logo no início do filme, quando André recupera uma carta que Ignácio lhe escreveu quando o filho estava perto de completar 20 anos. Ignácio fala sobre amigos, retoma a juventude em Araraquara e pensa nas diferenças entre as gerações. “Entre o que eu fui e o que você é, está a definição entre mundos e a diferença de gerações”, escreve. A carta é íntima, mas também tem algo de crônica: o olhar atento para pequenas situações e para a passagem do tempo.

      Ignácio de Loyola Brandão — Foto: Marcio Scavone/divulgação
      Ignácio de Loyola Brandão — Foto: Marcio Scavone/divulgação

      Os anos como jornalista ajudam a compreender parte da obra de Ignácio. Ele recorda o período da ditadura militar e o momento em que a redação onde trabalhava foi ameaçada pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Fala da repressão contra jornalistas e do clima de medo que cercava a imprensa. Ao comentar Zero, romance publicado inicialmente na Itália antes de ser lançado no Brasil e depois censurado pela ditadura, afirma que “não tem uma mentira dentro daquele livro”. Para ele, o país vivia tantas explosões que o romance também precisava ser “explodido”.

      O filme também volta a outros momentos da sua literatura. Em Araraquara, cidade onde nasceu, Ignácio recorda Homem em Baixo-Relevo, romance escrito em 1962 e guardado por anos antes de ser refeito. O livro acabou se transformando em Dentes ao Sol, publicado em 1976. O personagem que não conseguia deixar a cidade, conta ele, carregava um medo bastante pessoal. “Se eu não tivesse saído, eu tinha sido aquele personagem”, diz. Décadas depois, relê a obra e afirma enxergar nela uma profundidade que não percebeu quando foi publicada. “Meu melhor”, garante.

      O documentário toca ainda numa preocupação antiga do escritor com o futuro do planeta. Ao mostrar recortes que guardou sobre aquecimento global, degelo e mudanças ambientais, Ignácio retoma temas que já estavam presentes em Não Verás País Nenhum, romance de 1981 que imaginava um Brasil marcado pela falta de água e pela degradação ambiental. No filme, essas questões surgem menos como uma previsão e mais como parte de uma inquietação que acompanha sua maneira de observar o mundo.

      Ignácio de Loyola Brandão, em Berlim (1982) — Foto: Acervo Pessoal
      Ignácio de Loyola Brandão, em Berlim (1982) — Foto: Acervo Pessoal

      Usando imagens de arquivo, participações em programas de televisão, homenagens e cenas domésticas, André alterna o escritor conhecido pelo público e o pai filmado dentro de casa. O reconhecimento de uma carreira construída ao longo de décadas está presente, mas não é o único assunto. Tem espaço também para a família, para a descoberta de um aneurisma cerebral em 1996 e para as histórias que ficaram longe dos livros.

      É nesse vaivém entre o escritor público e o pai filmado em casa que o documentário se firma, num retrato mais atento à pessoa do que ao personagem conhecido pelo público. Perto do fim, Ignácio caminha por Araraquara, apresenta a cidade e fala dos filhos, da convivência e do orgulho que sente deles. Aos poucos, as imagens vão se entrelaçando entre épocas, do nascimento do neto às gravações que o próprio Ignácio fez e a cenas mais recentes. É desse tempo embaralhado que vem sua última pergunta no filme, sem resposta: “Em que momento o passado passa a ser passado e o futuro começa a ser futuro? É difícil dizer.”

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