• por que o quadro pode piorar nessa fase, segundo especialistas


      Depois de uma certa idade, é comum ter a sensação de que o corpo resolveu seguir regras próprias, em uma espécie de rebeldia tardia. Mesmo mantendo os hábitos alimentares e a atividade física, a barriga cresce de um jeito estranho, a massa muscular diminui, o cansaço aumenta… do nada. E, entre essas alterações, cresce, também, o número de mulheres que sentem que as pernas ficaram mais pesadas, maiores e doloridas.

      A reação quase sempre é a mesma: “Engordei”. Mas nem sempre esse é o motivo. Em um número importante de mulheres, essa transformação pode revelar ou acelerar uma doença que ganhou bastante visibilidade: o lipedema. Estima-se que cerca de uma em cada dez mulheres conviva com a condição, embora grande parte nunca tenha recebido o diagnóstico correto. Ela costuma ser confundida com obesidade, retenção de líquidos ou simples predisposição genética. Só que existe uma característica que chama a atenção dos especialistas: o lipedema frequentemente aparece — ou piora — justamente nos grandes períodos de revolução hormonal da vida feminina, como puberdade, gravidez e menopausa.

      “É muito comum a paciente chegar ao consultório dizendo que deixou de reconhecer o próprio corpo depois da menopausa”, explica o cirurgião plástico Rafael Erthal, especialista no tratamento do lipedema. “Essa fase funciona como um gatilho para a intensificação dos sintomas porque o tecido gorduroso afetado é extremamente sensível às alterações hormonais, principalmente à queda do estrogênio.”

      Embora muita gente associe o lipedema apenas ao acúmulo de gordura nas pernas, a doença é bem mais complexa. Trata-se de uma alteração crônica do tecido adiposo acompanhada por inflamação, mudanças do tecido conjuntivo e comprometimento da circulação linfática. A aparência é apenas a ponta do iceberg. A condição vem acompanhada de dor ao toque, sensação constante de peso, facilidade para hematomas, inchaço e dificuldade progressiva de mobilidade.

      A menopausa cria um cenário particularmente favorável para que esses sintomas ganhem intensidade. Com a redução do estrogênio, há uma importante redistribuição da gordura corporal, perda de massa muscular e a ocorrência de um estado inflamatório crônico de baixa intensidade, alterações que também favorecem a evolução do lipedema. “A doença já existia antes. O que acontece é que ela pode permanecer relativamente silenciosa durante muitos anos e se tornar mais evidente quando ocorre essa grande mudança hormonal”, explica a ginecologista Patricia Magier.

      Pesquisas recentes reforçam essa relação entre hormônios e lipedema. Uma revisão publicada este ano na revista científica Archives of Gynecology and Obstetrics concluiu que as oscilações hormonais — especialmente as relacionadas ao metabolismo do estrogênio e seus receptores — desempenham papel central no desenvolvimento e na progressão da doença. Os autores defendem, inclusive, que o lipedema deve ser entendido como uma condição fortemente influenciada pelos hormônios femininos, e não apenas como um problema de gordura localizada.

      O tratamento, hoje, combina alimentação com perfil anti-inflamatório, exercícios físicos — especialmente musculação e atividades que estimulam a circulação e o sistema linfático —, controle do sono, manejo do estresse, uso de terapias compressivas quando indicadas, acompanhamento ginecológico e, em casos selecionados, cirurgia para retirada do tecido comprometido. “Quanto mais cedo a mulher entende que existe um processo específico acontecendo, maiores são as chances de reduzir a dor, controlar a progressão da doença e recuperar qualidade de vida”, afirma o dr. Rafael Erthal. Mas nem toda perna grossa e dolorida é sinônimo de lipedema, alertam os especialistas. O diagnóstico depende de avaliação clínica especializada e deve diferenciar a doença de obesidade, linfedema e outras alterações vasculares.

      A menopausa muda, sim, o corpo feminino. Mas isso não significa sofrer com dores ou desconfortos. A medicina atual tem olhado com mais atenção às características singulares da saúde da mulher e ajudado a encontrar soluções. Boas soluções. E que continue.



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