Flávio Bolsonaro (PL) segue acumulando apoios de candidatos e partidos derrotados no primeiro turno, enquanto a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta se reorganizar e recalibrar sua estratégia de comunicação para o segundo turno das eleições presidenciais.
O cenário foi analisado no WW pelos especialistas Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice, e pelos analistas de política da CNN Caio Junqueira e Jussara Soares.
Flávio acumula apoios e adota postura cautelosa
O escritor Augusto Cury (Avante), terceiro presidenciável derrotado a declarar apoio a Flávio Bolsonaro, condicionou seu respaldo ao compromisso do candidato do PL (Partido Liberal) com uma lista de propostas para um eventual governo, entre elas o fim da reeleição para presidente.
Flávio já havia reafirmado essa promessa após receber o apoio oficial do Podemos. “Eu vou usar o capital político que um presidente recém-eleito tem também para conseguir aprovar isso no Congresso, para que sirva para mim já no meu mandato”, afirmou o candidato.
Flávio também já havia recebido os apoios de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Juntos, Cury, Caiado e Zema somaram mais de 5% dos votos válidos no primeiro turno.
Segundo Lucas de Aragão, a estratégia da campanha de Flávio é clara: jogar parado, aparecer pouco e rebater as críticas de forma estratégica. “A estratégia da campanha é de fato jogar parada e rebater de maneira estratégica o que vai aparecer de críticas e de informações negativas sobre a campanha”, avaliou.
O analista destacou ainda que há uma ala dentro da campanha preocupada com declarações anteriores do candidato, que em alguns momentos falou como se já estivesse eleito.
Há também uma estratégia de tentar ampliar votos no Nordeste, região onde o PT (Partido dos Trabalhadores) historicamente vai bem, mas onde a vantagem de Lula foi menor neste ciclo.
“Se a gente olhar o Lula em 2002 e o Lula em 2026, ele perdeu votos em todos os estados do Nordeste. O Flávio foi melhor em todos os estados do Nordeste comparado ao Jair Bolsonaro”, observou Lucas de Aragão.
PT enfrenta críticas internas e dificuldades no segundo turno
Do lado do PT, Lula retoma a campanha com o maior patamar já alcançado por um segundo colocado em um primeiro turno. No entanto, esta é também a primeira vez que Lula e o PT não contam com nomes de esquerda derrotados com mais de 1% dos votos para atrair eleitores no segundo turno.
A aposta agora é investir com força no ambiente digital, com o candidato gravando vídeos em formato selfie nas redes sociais. Em reunião com parlamentares aliados de esquerda, Lula defendeu reajustes acima da inflação para os aposentados: “É justo que quando a economia cresça 2% ou 3%, que você pegue esse crescimento do PIB e reparta para os trabalhadores.”
Para Lucas de Aragão, o segundo turno é extremamente desafiador para Lula. “É um segundo turno muito difícil para o presidente Lula, o mercado de votos não favorece”, afirmou.
O analista apontou que a campanha petista parece atribuir os problemas ao marketing e à comunicação, ignorando possíveis falhas do próprio governo. “É como se o governo ignorasse que talvez tenha algum problema com o governo”, disse.
Ele também destacou o desafio da abstenção, lembrando que, em 2022, os estados onde Lula venceu registraram aumento de abstenção, enquanto os estados de Bolsonaro tiveram queda. “Não é impossível, mas é um cenário extremamente desafiador”, concluiu.
Lula isolado e resistente a orientações, segundo bastidores
Jussara Soares revelou que, nos bastidores da campanha petista, há uma lamentação crescente de que Lula estava muito isolado e com dificuldade de ouvir pessoas próximas, inclusive antes do primeiro turno.
“Havia uma reclamação de que o presidente estava muito isolado, com muita dificuldade de atender determinadas orientações, de entender a nova lógica da política, a nova lógica das redes sociais”, relatou a analista.
A grande comemoração da semana, segundo ela, foi justamente o fato de Lula ter gravado um vídeo de selfie, tentando se modernizar. Há também críticas à atuação de Janja da Silva, à qual é atribuída parte do isolamento do candidato.
Caio Junqueira reforçou que as críticas dentro do PT nunca são direcionadas diretamente ao responsável principal pelos resultados. “As críticas que se faz à campanha do PT nunca são feitas diretamente ao responsável direto pela falha”, disse.
O analista apontou que, diferentemente dos governos anteriores, quando figuras como Antônio Palocci e José Dirceu confrontavam Lula diretamente, o atual entorno do candidato é formado por uma geração menos experiente, sem disposição ou capacidade de apontar os problemas ao próprio líder.
“As críticas são sempre terceirizadas para algum processo que acaba caindo no marqueteiro ou acaba caindo na primeira-dama, quando o contexto geral e estrutural é que os problemas estão na figura do presidente”, avaliou Caio Junqueira.









