Vera. Veramente. Verdade. É assim que a primeira supermodelo do Brasil e musa do Teatro Oficina se descreve no documentário “A Extraordinária Vida de Vera Valdez”, dirigido por Fábio Meira. O longa fez sua estreia na Première Brasil do Festival do Rio nesta terça-feira (06.10), e contou com a presença de figuras marcantes para a vida da artista – que, além de modelo e atriz, atuou como figurinista – como as parceiras de longa data Vera Holtz e Maria Gladys, e sua filha, Mariana de Moraes.
O encontro entre Fábio e Vera teve início durante o processo de pesquisa da produção Tia Virgínia (2023), quando buscava uma atriz para interpretar a mãe das personagens de Vera Holtz, Arlete Salles e Louise Cardoso. “Tinha que ser uma atriz muito boa, porque ela não teria uma fala durante o filme, mas ela teria que, através desse silêncio, narrar muito, contar muito”, relembra o diretor, em entrevista à Vogue.
Antes das filmagens, sentaram-se para jantar e, dali, nasceu uma grande amizade. Ouvindo os relatos sobre a relação com Coco Chanel, o estrelato na Nouvelle Vague e o legado no Teatro Oficina, espantou-se com a ausência da história de Vera contada nas telonas e, então, decidiu produzir o seu próprio filme. Segundo o diretor, a intenção era fazer um curta, mas “a vida grandiosa da Vera não cabia em 26 minutos”.
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Vinda de Guiné-Bissau ainda na barriga da mãe, Vera Maria Tereza Barreto Valdez nasceu em maio de 1936, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Filha de diplomatas, era incentivada a ter “postura”, o que, provavelmente, segundo o diretor, moldou sua elegância. Ao mesmo tempo em que era elegante, Vera era rebelde. Estudou em Portugal e na França, foi expulsa dos colégios e decidiu por conta própria que seria mannequin.
Na época, cada maison mantinha seu próprio time de modelos, que serviam tanto para provas quanto para desfiles. Em 1952, foi descoberta por Elsa Schiaparelli, com quem trabalhou por um ano, e, depois, por Christian Dior. Seu relacionamento mais duradouro foi com Coco Chanel, tornando-se uma das preferidas da estilista e desfilando para a maison até o último desfile antes do falecimento de Chanel em 1971.
“A relação com a Chanel era uma relação complexa, né? Porque a Chanel gostava muito dela. Mas, ao mesmo tempo, elas se bicavam muito, e a Vera nunca foi uma pessoa de acatar sempre as opiniões, as observações. Então, eram duas personalidades muito fortes em choque. Mas com muito respeito e com muita admiração dos dois lados”, conta Fábio.
Ainda em Paris, foi figurinista e atriz da Nouvelle Vague, importante movimento cinematográfico do final dos anos 50, quando se envolveu com o ator Maurice Ronet e, anos depois, com o diretor Louis Malle. Para o diretor, as vivências de Vera Valdez acontecem no mesmo cenário de Paris é uma festa (1964), obra do autor Ernest Hemingway que retrata a ebulição cultural, artística e social da capital francesa.
No Brasil, foi uma das modelos do costureiro Dener Pamplona de Abreu e ajudou a fundar a TV Globo, em 1965. Tornou-se grande amiga de Cacilda Becker e José Celso Martinez Correa, “Zé Celso”, que a convidou para integrar o Teatro Oficina de São Paulo. No espaço, consolidou sua trajetória nos palcos, com atuações em montagens como Bacantes (1986) e O Rei da Vela (2018). Em 2024, apresentou a peça Vozes Humanas, em homenagem ao seus 88 anos, na qual interpretava uma mulher lidando com os desafios de uma separação amorosa.
Revirando as memórias de Vera, das quais muitas foram reapresentadas à modelo, Fábio revela um incômodo próprio com o momento em que foi presa e torturada durante a ditadura no Brasil: “talvez esse seja o maior, digamos assim, desconforto dentro da pesquisa. Mas [Vera] sempre teve olhar de vanguarda, um olhar muito inquieto para a vida.”
Orgulhosa de ter a história contada, Vera Valdez assistiu a três versões do filme. A segunda, perto do corte final, ela vi durante um momento de internação, no qual inclusive as enfermeiras, que já a conheciam de longa data, se reuniram para assistir ao documentário no computador da enfermagem. Antes de falecer, em janeiro deste ano, Vera e Fábio se juntaram uma última vez para ver a versão final, que estreou no Festival do Rio.
“Ela estava muito feliz com o filme, ria muito, e muito satisfeita de vê-lo pronto. A vaidade da Vera era intelectual. Sempre foi uma mulher que leu muito, que era muito culta e muito próxima dos amigos, mas que preservou essa elegância para o resto da vida”, compartilha o diretor.
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Apesar de ter trabalhado ao lado de grandes estilistas, à frente de maisons como Chanel, e Schiaparelli, estrelado títulos na Nouvelle Vague posado para revistas como a Vogue Brasil (em 2014, participou de um ensaio posando ao lado da atriz Laura Neiva, que foi a primeira fidèle da Chanel no Brasil), para Fábio, a artista não teve o reconhecimento que merecia ainda em vida.
“Eu acho que ela estava satisfeita com o lugar dela no Teatro Oficina, com as participações no cinema e entre amigos. Então, eu acho que ela nunca procurou esse reconhecimento, não. Acho que ela sempre esteve, como esteve a vida inteira, feliz na pele dela.”
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